O ChatGpt vai deixar o Pensamento Crítico do Mundo menos XPTO? Eu gostava de iniciar este texto veementemente com a certeza que, de forma alguma, a nossa capacidade de pensar será abalada por esta evolução tecnológica. Mas não posso fazer isso, porque não seria totalmente verdade.

Também adoraria afirmar que as IAs (Inteligências Artificiais) não vão substituir os seres humanos nas suas ocupações laborais. Mas sinceramente, acho que no final de contas estaria a mentir. Afinal, não precisamos ir muito longe para entender o impacto que estas transformações tecnológicas acarretam na nossa forma de viver.

Recordo-me que em criança, todas as casas possuíam telefones.  Nos anos 90, inícios dos anos 2000, nessa época de glória da minha infância, simplesmente existiam os telefones. Depois de algum tempo surgiu a necessidade de adicionar o adjetivo “fixo” porque passámos a ter “telefones móveis”. Isto foi só uma pequena pegada nesta que é a constante evolução tecnológica!

Naquele tempo, eu tinha vários telefones gravados na minha memória: o da minha casa, evidentemente; o da casa dos meus avós, se não me engano, sabia até o do trabalho dos meus pais. A agenda telefónica, antes do telemóvel, era um artigo precioso em qualquer lar português, assim como a velha e grossa lista telefónica. Ai de mim rabiscar qualquer um daqueles números imaculadamente escritos à mão!

Eis que então surgem os telemóveis. Já não era preciso carregar agendas telefónicas pesadas e de difícil portabilidade – bastava guardar o número na lista de contactos do telemóvel e pronto! Era tão prático que nem era preciso escrever novamente o número. Bastava só encontrar o nome da pessoa e clicar no botão de ligar. Naquela época tal feito era como se tratasse de magia, algo que hoje damos por garantido!

O efeito disso? Otimização da vida das pessoas, facilitar a comunicação e agilidade. Porém, com isto, parámos de memorizar os números de telefones. Atualmente eu só sei o meu próprio número de cor (e às vezes até me confundo). Se a bateria do meu telemóvel descarrega e eu precisar de falar com alguém, fico em apuros! Pode parecer um disparate, mas não memorizar números de telefone é só um exemplo simples de como as tecnologias mudam a nossa forma de raciocinar.

As facilidades proporcionadas por estas inovações tornam o nosso dia-a-dia muito mais fácil. Mas já param para refletir quais são os efeitos disso nas nossas vidas? Naturalmente o ser humano é preguiçoso. Evitamos pensar. Tanto que o nosso cérebro involuntáriamente e sistematicamente cria mecanismos para nos poupar desse penoso trabalho.

A otimização do tempo proporcionada pela tecnologia é, sem dúvida, um dos principais ganhos que temos com isso tudo. Tempo é um recurso escasso. A maioria das pessoas que conheço sofre com a falta de tempo. Fato é que a sensação de falta de tempo, de urgência, de se correr contra o tempo é a ideia que permeia a sociedade de hoje em dia e qualquer coisa que proponha a nos dar mais tempo livre, conquista de imediato a nossa atenção. Tarefas do dia-a-dia aos poucos tendem a ser feitas por máquinas e robôs. Se existe forma de otimizar através da tecnologia, lá estamos nós prontos para trocar os nossos papéis e responsabilidades por artefactos tecnológicos.

Fica a questão, o que nos impedirá de trocar o trabalho de pensar pela comodidade de termos uma IA a fazer isso por nós?  Com isto, já deve ter visto, ouvido ou até mesmo usado o ChatGPT, esta tecnologia desperta o interesse de muitas pessoas e o que apresenta como solução é realmente inovador e incrível. A sigla GPT significa “Generative Pre-Trained Transformer” e dá nome a um modelo de linguagem baseado em “deep learning” (aprendizagem profunda), um ramo da inteligência artificial. Ou seja, quanto mais interagimos com a ferramenta, mais inteligente ela fica.  Não podemos negar que estamos diante de uma tecnologia inovadora, com múltiplas possibilidades de uso e que permite aceder a um vasto conhecimento espalhado pela internet nas mais diversas fontes.

Mas se lembrarmos dos filmes de ficção científica, quando uma IA vai-se aprimorando, normalmente acaba por ficar contra os seres humanos, os seus próprios criadores. Parece teoria da conspiração, mas, apesar disso, acredito que de certa forma essa inteligência vai-se voltar sim contra os humanos, não no sentido de destruir a humanidade, mas de destruir a nossa capacidade de pensar.

Esse é a premissa que me deixa consternado. Não existe problema em evoluirmos as inteligências artificiais nem desenvolvermos o ramo do “deep learning”. O problema reside no retrocesso da nossa inteligência humana, que pode acontecer com a ajuda constante das IAs. Estas deveriam ser usadas de forma positiva, que agreguem conhecimento. E não de forma destrutiva, substituindo o ato de pensar, minando a capacidade de raciocinar de uma geração.

É muito provável que já tenha já ouviu a frase: “Do nada, nada se cria”.

Originalmente do latin “Ex nihilo nihil fit” é uma expressão latina que significa nada surge do nada. Indica um princípio metafísico segundo o qual o ser não pode começar a existir a partir do nada. A frase é atribuída ao filósofo grego Parménides. A minha opinião sobre indagações acima proferidas têm como base a crença de que por mais fantástica que ferramentas como o ChatGPT possa ser, elas não têm a capacidade de substituir por si só o ser humano e não, este não é um texto contra o ChatGPT ou anti-evolução-tecnológica. Pelo contrário, seria até hipocrisia da minha parte ! Sou defensor do uso da tecnologia e acredito que ela amplia o nosso potencial como seres humanos em diferentes níveis e das mais diversas formas.

Antigamente, na era pré-internet (da qual eu não cheguei a fazer parte), os estudantes precisavam de ir às bibliotecas fazer pesquisas. Muito poucas pessoas tinham enciclopédias nas suas casas. Era preciso encontrar a enciclopédia com a letra do tema da pesquisa, ler o conteúdo e reescrevê-lo com uma nova linha de raciocínio.  Assim, eram fixados conceitos na nossa memória, porque ligações sinápticas eram construídas neste processo.

Com a chegada da internet, isso mudou. Para fazer trabalhos de pesquisa, os estudantes passaram a pesquisar o tema no Google, encontrar num site que falasse a respeito desse mesmo tema, selecionar o texto, Ctrl+C na página, Ctrl+V no Word, Ctrl+P e pronto! Nem o ato de reescrever se fez mais necessário. Alguns dos alunos mais dedicados ainda se esforçavam para ler, assegurando que não entregariam ao professor um trabalho de baixa qualidade. Contudo, esse momento de concentração, onde a leitura, acompanhada da escrita, contribuíndo assim para a construção do conhecimento, desvaneceu-se. Tornou-se uma prática obsoleta.

E agora com a chegada do ChatGPT? Tudo, ou praticamente tudo, é possível. Qualquer trabalho pode ser feito e os professores nem conseguirão identificar se é plágio, uma vez que a ferramenta gera respostas únicas e diferentes a cada questão colocada.

Como vão ficar as pesquisas e os trabalhos destes estudantes? Ou melhor, como vão ficar as aprendizagens dos mesmos? É neste ponto que o uso positivo da ferramenta precisará ser ensinado pelos professores e instituições, garantindo a bases de ética aos alunos. Pensar é o que nos diferencia dos animais. Por isso, devemos estimular o pensamento, fortalecer a nossa capacidade de pensar e usar as novas tecnologias a favor disso, não contra. É muito mais fácil não pensar e deixar a IA fazer o trabalho mais complexo por si. Mas cuidado: ao fazer isso, assume que pode ser substituído por ela. Eu não gosto da ideia de que o meu trabalho pode ser feito por uma IA. Por isso, uno a minha inteligência à dela. Juntos, podemos mais. Mas para isso, eu não posso perder a minha capacidade de pensar.

Respondendo ao título deste artigo: O ChatGpt vai deixar o Pensamento Crítico do Mundo menos XPTO? Depende. Depende da forma como vamos usá-la e depende se vamos permitir que isso aconteça. A responsabilidade disso está nas mãos de uma geração. Ou melhor, nas suas cabeças.

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